Biografia |
Patricia Leite (Belo Horizonte, 1955). Vive e trabalha em Belo Horizonte.
A artista foi aluna de Amílcar de Castro e tem bacharelado em Desenho e Gravura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. De acordo com o curador Rodrigo Moura, ela atualmente "organiza seus quadros a partir de imagens que carregam dois adjetivos que não naturalmente se alinham à tradição abstracionista que marcou sua trajetória pregressa: apropriadas e fotográficas. É a relação com essas imagens que tem decidido a composição de suas telas compostas de grandes massas de cor obtidas pela sobreposição de camadas de delgada tinta a óleo."
Após realizar exposição individual na Galeria Macunaíma no Rio de Janeiro, em 1984, ela foi premiada pela Fiat em 87, pelo Salão paulista de Arte Contemporânea em 88 e 89,e tem participado de coletivas, salões e realizado mostras individuais com regularidade. Em 2005 com a exposição intitulada Outra Praia, no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, ela redefiniu a pintura de paisagem levando-a ao elementar através da pesquisa com a cor.
Exposições Individuais
2009
Contra o céu, Galeria Nara Roesler, São Paulo, Brasil
2008
Espuma do mar eternamente e a Pedra, Manoel Macedo Galeria de Arte, Belo Horizonte, Brasil
2005
Pinturas, Gesto Gráfico Galeria de Arte, Belo Horizonte, Brasil
Outra Praia, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil
1993
Galeria de Arte Kolams, Belo Horizonte, Brasil
1992
Centro Cultural Cândido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil
1991
Fernando Pedro Escritório de Arte, Belo Horizonte, Brasil
1990
Sala Corpo de Exposições, Belo Horizonte, Brasil
1988
Galeria Minas Contemporânea, Belo Horizonte, Brasil
1987
Galeria de Arte Vitrine, Belo Horizonte, Brasil
Itaú Galeria, Belo Horizonte, Brasil
1986
Galeria de Arte do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Belo Horizonte, Brasil
1984
Galeria Macunaíma - Funarte, Rio de Janeiro, Brasil
Exposições Coletivas
2008
Paralela 2008, Liceu de Artes e Ofícios, São Paulo, Brasil
Procedente, MAP: novas aquisições, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil
Turistas, Volver - curadoria Luisa Duarte, Galeria Carminha Macedo, Belo Horizonte, Brasil
2001
Setembro, Gesto Gráfico, Belo Horizonte, Brasil
1999
Centro de Convivência da UFV, Viçosa, Brasil
1998
A Ponte - Salas Genesco Murta, Arlinda Correa Lima, Belo Horizonte, Brasil
1997
Mês da Mulher, Casa de Cultura de Ribeirão Preto, Brasil
Prospecções / Arte nos Anos 80 e 90, Palácio das Artes, Belo Horizonte, Brasil
1996
Efeito Festival, Pace Galeria de Arte, Belo Horizonte, Brasil
1994
Cor e Luz, Espaço Cultural Cemig, Belo Horizonte, Brasil
Retrospectiva 5 Anos do Escritório de Arte Fernando Pedro, Museu Mineiro, Belo Horizonte, Brasil
1992
Bonfim, Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil
1991
Utopias Contemporâneas, Palácio das Artes, Belo Horizonte, Brasil
Dez Anos de Acervo, Coleção Centro Cultural Cândido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil
Bonfim, Palácio das Artes, Belo Horizonte, Brasil
1990
De um Time de Artistas Arte Copa 90, Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte, Brasil
Sexta Básica, Galeria Enquadros, Belo Horizonte, Brasil
1989
Azulejos, Gravuras, Cerâmicas - Oficina Cerâmica Terra, Belo Horizonte, Brasil
1988
Imagem Pública - Projeto vencedor da concorrência FIAT, Out-doors, Belo Horizonte, Brasil
Descendo a Serra, Artistas Mineiros no Rio, Galeria Cândido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil
Maltraçadas Linhas, Palácio das Artes, Belo Horizonte, Brasil
1987
Caminhos do Desenho Brasileiro, Museu de Arte do RS, Porto Alegre, Brasil
1986
Preciosidades para Colecionadores, Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte, Brasil
1985
Mostra Inauguração, Galeria Paulo Campos Guimarães, Belo Horizonte, Brasil
A Criança de Sempre, Espaço Cultural Cemig, Belo Horizonte, Brasil
Velha Mania, Desenhos, Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil
1984
Dez Artistas e um Computador - Fundação João Pinheiro - Belo Horizonte, Brasil
1982
Núcleo Experimental de Arte - Belo Horizonte, Brasil
1981
Quatro Artistas - Sala Corpo - Belo Horizonte, Brasil
Prêmios
1990
XXII Salão Nacional - Museu de Arte da Pampulha - Belo Horizonte, Brasil
1989
XXI Salão Nacional - Museu de Arte da Pampulha - Belo Horizonte, Brasil
VII Salão Paulista de Arte Contemporânea - Prêmio de Aquisição - Brasil
1988
VI Salão Paulista de Arte Contemporânea - Pavilhão da Bienal - Brasil
XX Salão de Arte - Museu de Arte da Pampulha - Belo Horizonte, Brasil
1987
V Salão Paulista de Arte Contemporânea - Prêmio de Aquisição, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil
XIV Salão Nacional - Museu de Arte da Pampulha - Belo Horizonte, Brasil
1986
Salão Nacional de Artes Plásticas - Palácio das Artes - Belo Horizonte, Brasil
Vll Mostra do Desenho Brasileiro - Museu de Arte Contemporânea - Curitiba
1985
Xll Salão Nacional, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil
Xll Salão Nacional da Fundação Clóvis Salgado, Belo Horizonte, Brasil
1982
Salão Nacional de Artes Plásticas, Funarte/MAM, Rio de Janeiro, Brasil
Coleções Públicas
Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil
Thyssen-Bornemisza Art Contemporary, Viena, Áustria
Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil
Centro Cultural Cândido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil
TEXTOS CRÍTICOS
Contra o Céu
Luisa Duarte - 2009
Em uma parecem ser lâmpadas enfileiradas e suspensas no ar. Em outra, um sinal verde reluz. Há aquela que parece revelar um triângulo evocando a lona de um circo acesa, ou, se buscarmos, podemos avistar uma constelação mais adiante. Em comum, existem as luzes contra o céu, que pode ser o da manhã, do cair da tarde, ou o negro profundo, que se dá quando a lua é nova e abre espaço para as estrelas.
Demorar-se na observação da relação das luzes contra o céu, ou se apropriar de uma fotografia que revele tal imagem, é o primeiro momento da maior parte das pinturas reunidas na exposição de Patrícia Leite. Apesar da figuração existente em suas praias, areias, mares, pedras, lonas e céus, a obra da artista traz consigo uma insuspeita dose de abstração. Estes elementos reais surgem antes como massas de cor. Assim, é a composição entre as cores que nos dá a ver tais elementos reconhecíveis na realidade. Nós conseguimos identificar um mar, um trecho de areia ou uma série de lâmpadas, mas antes pelo nosso poder e tendência de figurar o que é quase abstrato do que por uma figuração já dada. Se muitas vezes a fotografia é o princípio referencial dessas pinturas, note-se a inversão processada pela artista. Da realidade fotográfica surge uma pintura que, ainda sendo figurativa, é atravessada por uma dose de abstração, trazendo uma densidade que instiga o olhar a ir decompondo abstratamente e construindo figurativamente a um só tempo.
Se afirmamos que nessas pinturas uma montanha ou um pedaço de mar são menos construídos por traços precisos, e mais pela composição de espaços cromáticos, torna-se possível entrever a importância desse elemento na obra da artista. É em grande parte ela, a cor, uma matéria que vista isoladamente pode possuir atributos meramente formais, que irá apontar para camadas significantes no trabalho da artista. Diante das pinturas de Patrícia, há que se saber ver e sentir as cores, para daí pensá-las.
Vejamos algumas obras específicas. Em "Lâmpadas III", vê-se um vermelho sangue escuro que revela uma forma triangular um tanto informe; uma série de pequenos círculos brancos enfileirados remete a uma iluminação suspensa; ao fundo o céu azul já está escurecido, não é meio dia, tampouco meia noite. No canto superior direito da composição temos uma camada de preto difícil de ser figurada. Este preto poderá ganhar a conotação de um trecho de uma montanha caso olhemos para a obra "Lona Acesa", na qual avistamos a lona do que poderia ser um circo e uma cadeia montanhosa ao fundo. Uma espécie de síntese dessas duas pinturas, "Lâmpada II" mostra tão somente as pequenas lâmpadas brancas suspensas contra um céu azul. Se fizermos a experiência de deixar a galeria às escuras, veremos que dos círculos brancos irradiará luz. É o branco que ilumina. A artista, no início do processo de pintura, preenche toda a madeira com a cor branca, e passa a colorir o entorno, deixando os círculos no branco original. Quando todo o resto foi tomado por outras cores, as lâmpadas/círculos/brancos acendem.
A luminosidade que irrompe das cores está presente em quase toda a obra da artista. Ou seja, aqui interessa menos a temática, a representação, mas sim o trabalho cromático e de composição exercido sobre a tela, bem como o que há de luminosidade na própria cor e os significados e sensações que ela pode deflagrar. A relação de luz/cor contra o céu é o denominador comum a ser apreendido pelo nosso olhar diante dessas pinturas.
Se o fim da tarde, aquele momento de lusco-fusco, espécie de vão entre o dia e a noite, no qual as cigarras cantam e as luzes acendem, evoca uma sensação de melancolia, o azul do meio dia presente no painel "Sinal" transpira afirmação e vitalidade. Como se não bastasse o céu solar, há o sinal verde, como que dizendo sim em uníssono com a vida e a hora do dia que o acompanha.
Há ainda, na exposição, as pequenas marinhas que formam a série nomeada "Arpoador". Aqui, a escala é menor, solicitando uma aproximação maior de quem olha. Nestas pequenas pinturas vêem-se claramente alguns aspectos que perpassam muitas das obras da artista. Mesmo se tratando de vistas de uma praia, nota-se um olhar urbano e nada ingênuo diante da natureza. Temos uma paleta com poucas variações cromáticas, sem áreas de sombra. Areia, vegetação, espuma e mar estão em um só plano, não perspectivados. Nosso olhar não se alonga, mas caminha num campo onde a economia, e não o excesso, dá as cartas.
Na contra mão da superlatividade que domina a vida cotidiana, no caminho inverso da pressa instaurada por um mundo que solicita andar sempre para frente em busca sabe-se lá do que, o trabalho de Patrícia Leite deflagra um outro ritmo que por sua vez nos solicita um novo olhar. Mesmo com a luz intensa que dela irrompe, sua obra não grita, seu partido é o de uma discrição altiva. As pinturas de Patrícia, para mim, sempre surgiram como a evocação encarnada de um outro espaço e tempo, a possibilidade de, em meio ao caos em que vivemos diariamente, estabelecer uma pausa, uma suspensão através do negro profundo pontilhado de brancos com uma linha lilás abaixo. Essa restauração de uma espécie de esperança ou a instauração de um outro modo de estar no mundo, mesmo que breve, são aspectos que concernem à arte e que o encontro com a obra dessa artista proporciona. Demorar-se nos seus céus ou nas suas marinhas é fazer o tempo dançar, ao invés de marchar.
Espuma do mar eternamente e a pedra
Júlia Rebouças - 2008
Anoiteceu nas praias, cachoeiras, rios e céus de Patrícia Leite. Do que era amarelo ensolarado restaram os azuis cerrados, rosas, vermelhos, o verde escuro do céu que vai ser logo negro azul. Espalham-se luas e umas pequenas luzes de cidade ao longe. A silhueta de tudo o que anoitece acaba virando pedra.
Nas suas paisagens, há sempre um anteparo até o horizonte. Na verdade, a barreira que atravessa o olhar é condição para a sensação de horizonte. Como tudo é azul (ou verde, ou vermelho), o horizonte só existe por causa da pedra antes. E ser pedra é função também das nuvens, da mata, da areia, da espuma, da folha, dos galhos. Tudo pode virar pedra na composição em contraluz do infinito que é desanuviado.
E apesar da fala ser em torno de horizontes e infinitos, a construção desses conceitos, nas pinturas de Patrícia Leite, chama atenção: não há perspectiva que alongue o olhar. As paisagens são rasas, do mar ao céu. Entre a pedra da margem e o oceano denso não há elementos-marcos que seccionem o tamanho da imensidão. Essa paisagem também carece de objetos-seres-coisas que a povoem. Na falta de minúcias, resta a grandeza dos lugares espalhados, vastos, tão simples que quase deixam de ser paisagem.
Esta economia de cores e formas para cada chassi, de alguma maneira, faz a percepção voltar-se para uma composição de linhas, geometrias e massas de cor, que poderia não ter outro significado que não fosse a própria composição. Quase abstrações: uma linha horizontal azul, sob uma faixa verde e uma forma triangular de verde muito escuro; há um mar verde-azul com uma pedra negra pousada sobre ele.
A princípio o uso das cores pode parecer elementar, de tão objetivo. No entanto, uma aproximação mais cuidadosa faz mostrar que o azul é constituído por uma camada de verde, de lilás, de amarelo, de outro verde, de diferentes azuis. Camadas sempre sobrepostas umas às outras em pinceladas cujos sentidos definem os veios da pintura. Os tantos tons usados fazem-se revelar na lombada da pintura, quando escorrem suas matrizes. Mais atentamente, as cores acumuladas se denunciam em pequenas frestas que escapam à tonalidade dominante.
Quem se propõe a pintar nos dias de hoje deve considerar que o seu trabalho carrega a companhia de toda uma tradição artística. Quem opta por pintar a óleo e escolhe a paisagem como tema deve reconhecer com nitidez todo esse legado. No entanto, aquele que escolhe redescobrir-se artisticamente na própria pintura, abandonar seus excessos, rejeitar filiações apressadas, ganha no escopo de seu trabalho não só a história da arte, da pintura, como também a contribuição da memória que se faz no tempo do agora, nas experiências, nos artistas e nas proposições espalhadas mundo afora.
É dessa maneira desprendida que Patrícia Leite incorpora a este universo as suas paisagens. Confortável no exercício de anos de trabalho, não teme conversar sobre o que pode ser bonito em sua obra, claro, simples. Todas as considerações a respeito da sua produção irão encontrar atentos os ouvidos da artista, firme em seu lugar de pintora, serena em suas escolhas.
“Pedra e Água” in: Os Quatro Elementos (1935), Murilo Mendes
[Esta mulher sem fim e a noite sobre a noite / E esta fome de ti, meu Deus talvez de mim. / Quem sabe eu já morri, meu esqueleto eterno / Em pé nos séculos e nas ondas me reveste. // O mar, a escuridão, esta fome de amor, / Esta noite sem fim e o X de Deus / Que em nós todos vive, morre e renasce / Espuma do mar eternamente e a pedra.]
Texto para exposição individual
Galeria Manoel Macedo, Belo Horizonte, MG
14 de maio a 07 de junho de 2008.
Patrícia Leite / Outra praia
Rodrigo Moura - 2005
É apenas em parte verdade em relação à pintura de Patrícia Leite a afirmação de Matisse ("sinto pela cor, é portanto através dela que a minha tela será sempre organizada") estampada em seu ateliê: um terraço debruçado sobre a paisagem de Belo Horizonte, com montanhas e áreas verdes que teimam sobreviver em meio à massa de concreto. Desde alguns anos, a artista – sem dúvida, colorista caprichosa – tem organizado seus quadros a partir de imagens que carregam dois adjetivos que não naturalmente se alinham à tradição abstracionista que marcou sua trajetória pregressa: apropriadas e fotográficas. É a relação com estas imagens que tem decidido a composição de suas telas, compostas de grandes massas de cor, obtidas pela sobreposição de camadas de delgada tinta óleo. As grandes áreas estão cada vez mais presentes, desde que Patrícia passou a se interessar pela pintura de paisagem, uma paisagem levada ao elementar pela pesquisa com a cor. Assim, à medida que sua pintura se aproximou mais de imagens referenciais, ao mesmo tempo tornou-se mais abstrata e, ainda, mais pessoal e mais livre.
Outra praia é título cravado a quatro mãos com a artista para caracterizar, em duplo sentido, o momento de sua obra quando esta exposição foi concebida e produzida. Por um lado, indica o afastamento de sua produção de dogmas e influências de seus primeiros anos, identificada com a abstração gestual que marcou boa parte da produção brasileira nos anos 1980, sobretudo em Minas Gerais. Tratava-se de um desafio que Patrícia aceitou: o de reclamar identidade para uma pintura que se confundia entre seus autores, que carecia de singularidade a favor de um zeitgeist contagiante. Agora ela estava em "outra praia", como se diz coloquialmente, depois de longos 13 anos de pintura constante no novo ateliê, sem expor uma tela sequer, em acervo da galeria que fosse. Por outro, caracteriza a inclinação da artista de, durante pelos menos três anos (2003-2005), produzir vistosas paisagens marinhas, em variados formatos, tamanhos e palhetas.
No particular método da artista, a composição começa no instante em que a fotografia é feita (por ela ou por outros, autores ou anônimos). Ali se acham os contornos que definem as grandes massas de cor que vão formar a paisagem mais tarde, bem como os planos que irão organizar o espaço e mesmo algumas sugestões de cor que não serão desperdiçadas. Porém é no caminho de definição cromática que ocorrem as maiores decisões e o momento de maior investigação – um enlace lento, discreto e provocante com a pintura. Ao longo do tempo, diferentes cores são colocadas umas sobre as outras, criando a intensa luz que caracteriza estes quadros pintados sobre madeira. Assim, matéria e técnica pictóricas são atributos ao mesmo tempo formais, conceituais e narrativos nas pinturas de Patrícia. As mesmas cores, sobrepostas em diferentes ordens nas pinturas, sugerem que os quadros passaram por várias horas do dia antes de chegar àquela. As pinceladas que insistem em aparecer na escritura da matéria lisa e fina entregam uma "moleza" no gesto que se reflete na forma. O encontro entre os campos de cor deixa frestas por onde se vê um furta-cor, sugerindo um encaixe incompleto e não ilusionista.
No Mezanino da Pampulha, em tapumes que ocultavam a vista da Lagoa e do horizonte, Patrícia pendurou praias que, como janelas, em pleno verão belo-horizontino (ou seja, chuva), traziam para dentro do Museu sóis a pino, pedras, uma folha de palmeira, tempestades cinzentas, uma ilha vermelha, vistas noturnas, uma faixa de areia rosa, uma onda cinematográfica que, com o tempo, ia e voltava à praia, em dez pinturinhas que se parecem fotos de viagem (e são).
Se, na visão esquemática da história da arte, a fotografia mata a pintura como num contos de fadas, vencendo-a pelos seus atributos de reprodutibilidade e de naturalismo, a pintura de Patrícia nos lembra que a mesma fotografia é aliada poderosa para criar imagens únicas e dar novas vidas à pintura.
fone : Nara Roesler em 10.04.2010
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